Anti-arquitectura e religião

Nikos A. Salíngaros

 

Departamento de Matemática, The University of Texas at San Antonio, USA. salingar@sphere.math.utsa.edu

Brotéria (Lisboa) 155 (Novembro de 2002), páginas 381-388.

 


Resumo (de Hermínio Rico SJ)

Em estilo polémico e sem poupar agressividade argumentativa, crítica da arquitectura modernista, classificada como um culto destrutivo, enredada na filosofia desconstrutivista francesa, de que faz uso como referência legitimadora. Apologia do estilo tradicional, em que a arquitectura encontra na milenar busca religiosa humana a estrutura de sentido que a orienta, e acaba por funcionar como um meio de ligação da humanidade a uma forma mais alta de ordem no universo.


Ao querer explicar um mistério cultural -- porque é que o mundo renunciou a edifícios emocionalmente nutridores, e adoptou, em vez deles, edifícios que nos fazem literalmente mal -- deparam-se obstáculos severos. Não é que os métodos para produzir edifícios humanizados sejam desconhecidos, ou que haja falta de arquitectos para os construir; a sociedade tomou uma decisão consciente de construir aquilo que constrói. Além disso, uma energia enorme é gasta em convencer as pessoas que os nossos ambientes construídos contemporâneos são bons, embora quase todos tenham uma sensação diferente. Há uma desconexão básica entre o que nós sentimos, e o que nos dizem que devemos sentir -- ou somos forçados a aceitar. As respostas a estas perguntas conduzem-nos da teoria da arquitectura para as crenças e os sistemas sociais.

Desejo desenvolver aqui uma ideia que tem sido frequentemente enunciada por arquitectos neotradicionalistas: que nem todos os estilos são equivalentes em termos das suas consequências arquitectónicas; alguns estilos têm efeitos nocivos não somente sobre o ambiente construído, mas na sociedade em geral. Contrariamente a uma suposição operativa aceite entusiasticamente pela nossa cultura contemporânea, o avant-garde não é inofensivo. O pluralismo estilístico esconde um perigo porque aceita cultos dentro da sociedade, e esses cultos gostariam de destruir a sociedade.

Dentro de um estilo arquitectónico, emparceiram-se ideias e conceitos que podem não ter nenhuma relação lógica entre si. Alguém constrói uma estrutura visualmente nova, e depois inventa explicações irrelevantes para a razão pela qual a estrutura tem essa aparência. Para assegurar o sucesso, o arquitecto pode referir o estilo novo aos temas que preocupam a sociedade nessa altura, prometendo que a sua adopção ajudará a sociedade a avançar no sentido desejado. Os estilos dos edifícios que evoluíram durante milénios não sofrem de tal desonestidade ou disconexidade lógica; somente os estilos inventados à pressa são defeituosos desta maneira. O esteio filosófico de um estilo particular pode fazer alguma afirmação ou declaração falsa e, contudo, parecer ser adequado duma maneira superficialmente satisfatória. É esta satisfação de parecer adequado que engana a mente e a faz aceitar uma estrutura estilística; a mente habitualmente não examina a coerência lógica da mensagem completa. Existe um mecanismo inato na mente humana que permite este fenómeno.

 

A religião como fornecedora duma estrutura de sentido

Não se pode negar que as maiores criações arquitectónicas da humanidade surgiram como resposta ao fervor religioso; o desejo de expressar materialmente aquilo que seres humanos sentiram para com o seu Deus e Criador. As Catedrais, as Igrejas, as Mesquitas e os Templos à volta do mundo atestam este facto. Enormes investimentos de energia humana foram canalizados para criar estas estruturas. Com poucas excepções, revelam uma absoluta honestidade de expressão.

A religião nasce da necessidade de entender um universo que escapa à nossa compreensão por causa da sua complexidade profunda e ordenada. A religião agiu, nos melhores períodos da civilização humana, para complementar a nossa compreensão científica dos fenómenos naturais. Pode e procura dar respostas às perguntas que são demasiado difíceis para a ciência responder. Apresentando um conjunto de orientações e de rituais como contrapeso ao lado destrutivo da natureza humana, as religiões do mundo com sucesso impediram, mais ou menos, a humanidade de se desmoronar no caos e no barbarismo.

Todas as religiões se baseiam em adorar alguma forma mais elevada de ordem, o que significa que um aspecto chave da religião consiste em tentar recriar esta ordem como expressão geométrica usando materiais físicos. Este processo começa com a Casa de Deus e os artefactos religiosos, mas certamente não pára aí. Nas primeiras religiões, o espírito criativo manifestava-se em toda a parte, e não meramente em locais especiais ou num tipo especial de artefacto sagrado. Os objectos utilitários eram feitos com a mesma filosofia de esforçar-se por representar a complexidade e a beleza do universo -- como melhor era compreendido pelos seres humanos desse tempo -- nas coisas que nós construímos. Toda a pessoa religiosa aceita que Deus está verdadeiramente em toda a parte, e assim, durante milénios, tentámos construir tudo em torno de nós de acordo com uma lógica mais elevada. Embora isto tenha criado uma tensão com as forças opostas da economia, do utilitarismo, da moda, etc., esta tensão impediu que os nossos edifícios e artefactos alguma vez existissem sem vida.

A crença religiosa é comandada geralmente (ainda que não com todos os povos) por uma necessidade da pessoa se acomodar aos mistérios do universo. Uma mitologia religiosa não fornece apenas regras para a conduta diária; ela dá também a consolação e a estabilidade contra a possibilidade assustadora de não haver nenhum sentido para vida: de que a vida em si própria pode ser um acontecimento aleatório e inconsequente. Um sistema de crenças oferece, assim, um propósito às nossas vidas. Da mesma maneira, os arquitectos necessitam de uma estrutura de sentido para a sua profissão, e, tendo abandonado os valores tradicionais, irão procurá-la nos cultos de sua própria invenção. A arquitectura não desenvolveu ainda uma base científica que obviasse à busca de sentido no misticismo e na irracionalidade.

 

O desconstrutivismo filosófico francês

Um grupo de filósofos franceses começou uma moda anticientífica nos finais do século XX. Numa série de artigos que fazem pouco sentido, reivindicaram que a análise científica era inválida, e que formas de pensamento do tipo desassociação livre são mais éticas. O que realmente querem dizer é impossível de sumariar, precisamente porque lhe falta qualquer lógica interna. Não obstante, o resultado deste movimento foi criar um culto de seguidores anticientíficos, que agora questionam todas as realizações científicas da humanidade, e mesmo todo o progresso conseguido através da ciência.

A resposta à inevitável pergunta de como é que um culto tão bizarro e destrutivo pôde surgir no mundo académico encontra-se talvez num fenómeno linguístico. O desconstrutivismo começou como um discurso em círculos académicos franceses. Aqueles de nós que falam francês, e que poderão ter lido filosofia francesa, sabem certamente que um intelectual talentoso pode discutir alto em francês e dizer muito pouco de substância, parecendo, no entanto, estar a fazer afirmações muito profundas. Os franceses têm uma longa tradição dum tipo de discurso erudito que pode ser vazio de conteúdo mas linguisticamente rico em expressões e gestos floreados.

Se esta hipótese estiver de facto correcta, explicaria porque é que a audiência académica francesa original ficou extasiada pelos discursos desconstrutivistas, visto que os textos na tradução inglesa não fazem sentido nenhum. Não obstante, aqueles textos são lidos hoje pelo mundo inteiro -- são parte de um culto estabelecido cuja irracionalidade faz parte do seu misticismo.

 

A arquitectura desconstrutivista

A arquitectura desconstrutivista pode ser descrita como o produto de um grupo de arquitectos que criam o seu próprio culto através da definição de um estilo novo de edifício. O estilo é facilmente reconhecível como tendo formas quebradas, usando materiais « high-tech» para excitamento visual, e violando intencionalmente os princípios mais elementares do equilíbrio, do ritmo e da coerência. A sua única táctica de desenho é um gesto morfológico simples e aleatório que retira o sentido à forma. É duvidoso que tais arquitectos compreendam os filósofos franceses desconstrutivistas (pois tais escritos são, por princípio, não compreensíveis). Encontram neles certamente, no entanto, um esteio filosófico conveniente -- e uma etiqueta vistosa -- para justificar o seu próprio culto arquitectónico.

A ciência tenta compreender a complexidade ordenada do universo. Segue um processo que junta diferentes fragmentos de intuição, obtidos por investigadores diferentes e por técnicas diferentes, numa figura coerente. Às vezes os cientistas desmontam uma estrutura para estudar as suas peças, mas somente para poderem melhor compreender como é que o todo funciona. A desconstrução é a antítese disto: é o destruir da forma apenas para destruir. Destrói a complexidade ordenada que a natureza maravilhosamente sintetizou, e da qual nós mesmos surgimos. Esta destruição é simplesmente um voltar-se contra as forças evolucionistas que nos criaram.

O sucesso do culto desconstrutivista é inegável, contudo. Hoje em dia, as mais prestigiosas escolas de arquitectura do mundo abriram as suas portas ao desconstrutivismo, e contrataram aqueles arquitectos que se fizeram os representantes principais deste culto. Grandes empresas, os governos, e mesmo instituições religiosas estabelecidas competem pelos seus favores, gastando dinheiro em encomendas com aspecto extraterrestre; grandes somas de dinheiro que poderiam de outra maneira ser usadas para construir estruturas adaptadas aos seres humanos e ao espírito humano. Num entusiasmo absurdo -- e finalmente destrutivo -- com uma moda arquitectónica, os media promovem o culto de imagens desconstrutivistas, divulgando-as ao mesmo tempo que lhes conferem respeitabilidade.

Finalmente, técnicas típicas das seitas evangélicas são perversamente utilizadas para vender ideias desconstrutivistas aos países do terceiro-mundo, associando falsamente formas bizarras com progresso tecnológico. Os países que adoptam esta ideia destroem, então, estupidamente, seus edifícios vernáculos, históricos, e sagrados a fim de supostamente alcançarem um nível mais elevado de cultura arquitectónica. Exactamente o oposto é o que ocorre mais tarde ou mais cedo, depois de o excitamento inicial se evaporar, pois recursos escassos são desperdiçados a pagar caros materiais importados tais como o vidro e o aço. O resultado disto é um desastre ecológico impendente sobre todo o mundo. Os danos feitos ao nosso herdado legado arquitectónico e cultural são imensos.

 

Intolerância para com estruturas históricas e vernáculas 

Em tantos casos, um edifício mais velho perfeitamente sólido foi demolido a fim de dar lugar a um edifício novo muito inferior. A renovação e a adaptação simplesmente não são consideradas -- os vestígios do passado devem ser apagados inteiramente. E no entanto, tanto em termos da qualidade estrutural, como da sua conectividade aos seres humanos, muitos dos edifícios mais antigos simplesmente não podem ser hoje duplicados; custariam muito mais a construir do que os clientes estão habituados a pagar hoje em dia, e poucos arquitectos contemporâneos saberiam mesmo como os construir. Talvez esta inveja, a provada inabilidade de chegar aos padrões arquitectónicos e às realizações superiores daqueles que estão fora do culto, seja o que move os seus destrutores.

Apesar da muito publicitada reacção dos vários estilos arquitectónicos pós-modernistas contra o modernismo inicial, todos eles têm retido a intolerância do modernismo para com as estruturas históricas e vernáculas. Como é bem sabido, ainda é proibido construir no estilo tradicional, e, quando elementos tradicionais são incluídos por qualquer razão, podem somente aparecer como «anedotas», e não como componentes tectónicos integrais. Aqueles poucos arquitectos contemporâneos que constroem em estilos mais ou menos tradicionais são viciosamente atacados pelo establishment arquitectónico. Se alguém ousa quebrar o tabu do século XX contra a arquitectura tradicional, então esse arquitecto ou arquitecta arrisca-se a terminar a sua carreira.

Não é nenhuma surpresa, então, que novos edifícios tradicionais despertem tão violenta oposição e ultraje a partir de dentro da comunidade arquitectónica. É interessante que esta repugnância é comparável àquela sentida por cidadãos comuns quando confrontados com as bizarras estruturas desconstrutivistas, que nesse caso é comandada pelos nossos intrínsecos («hard-wired» ou evoluídos biologicamente) instintos para a ordem. Em consequência do seu treino, a maioria dos arquitectos considera hoje a arquitectura tradicional como «impura», e que parte do seu dever profissional consiste em purificar o mundo através da sua eliminação. Nesta concepção das coisas, os arquitectos neotradicionalistas são traidores e inimigos do culto.

 

Até mesmo a Igreja ...

É como se os arquitectos formados pelos ideais do século XX tivessem lido o tratado de Hans Urs von Balthasar, A Glória do Senhor: Tomo I, que liga a beleza ao amor de Deus -- com o fim de fazer exactamente o oposto. Tudo o que é natural, bonito, sagrado, e santo é negado, ridicularizado, e suprimido; e, ainda mais, com uma insistência fanática. Nem mesmo a própria Igreja foi poupada. Numa notável adopção do que é fundamentalmente ímpio, a Igreja abraçou a arquitectura modernista. O resultado é que a muitas pessoas não lhes apetece rezar em edifícios novos da Igreja que os fazem sentir-se mal. Questionam também a sabedoria de uma Igreja que já não identifica o belo com o Sagrado.

Por muitos milénios, a expressão arquitectónica mais elevada era reservada para a Casa de Deus. Isto é verdade com todos os povos e todas as religiões. É irrelevante se a iconografia era permitida ou não: onde o era, a humanidade criou mosaicos, frescos e pinturas gloriosos; onde não era, nós criámos azulejos policromos fantásticos, entalhes de madeira, e tapetes para os nossos lugares de adoração. Os espaços religiosos em si mesmos simbolizam pela sua geometria a expressão mais elevada do amor dos seres humanos pelo seu Criador. Tudo isto terminou abruptamente no século XX -- não somente a criação de espaços iluminados, mas também a nossa ligação através da arquitectura a uma forma mais elevada de ordem no universo.

Os arquitectos modernistas quebraram o espaço interior em volumes mal definidos, usando planos quebrados nas paredes e formas e ângulos extremos no tecto. Uma falta de fechamento (exacerbada frequentemente pelas paredes de vidro) destruiu a integridade das salas individuais. Os espaços habitáveis tornaram-se ou constringidos, por abaixarem demasiado os tectos, ou incómodos, por levantarem o tecto à altura de dois andares. Para complementar este assalto aos sentidos do utilizador, materiais duros, reservados previamente para superfícies externas, foram introduzidos em paredes internas. Numa ironia especial, os arquitectos modernistas foram encarregados de construir igrejas (algumas das quais foram consideradas não utilizáveis pelos seus ocupantes pretendidos), e para desfigurar igrejas mais antigas através duma assim chamada «renovação».

Encontramo-nos numa fase difícil na história da arquitectura. Parece (e não somente ao autor) que as principais instituições arquitecturais académicas adoptaram uma filosofia e uma prática que representa a anti-arquitectura. Além disso, as universidades estão a ensinar esta anti-arquitectura a mais de uma geração de arquitectos futuros. As pessoas fora do meio esperam ingenuamente que os arquitectos saibam do que é que trata a arquitectura, e que os mais famosos sejam guias de confiança a seguir. E contudo, nada podia estar mais longe da verdade. A disciplina foi conquistada por um culto destrutivo. Não está dentro do poder deste curto ensaio inverter esta tendência catastrófica, mas ao menos pode levantar um sinal de advertência para o resto do mundo sobre uma arquitectura que enlouqueceu.

(Traduçao revista por Hermínio Rico SJ)


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